quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Retiro


Acho que foi Lama Yeshe que disse que ´um retiro é tão duro quanto você mesmo`. Existem muitos livros e textos sobre como fazer retiro e como superar as dificuldades de um retiro mas o melhor conselho que já ouvi veio de Lama Gangchen que simplesmente disse “relaxe”. Esta palavra pequena pode ajudar muito durante 11 horas de meditação diárias. Outro pensamento que ajuda, é sentir e pensar sobre o fato de que é o retiro que faz você, e não você que faz o retiro.
Cristine Skarda, uma monja, scientista e filósofa diz sobre fazer retiro: “Esta é a coisa mais importante que você já fez. É a coisa mais importante que você pode fazer. Nunca desista.” Durante um retiro intensivo e tradicional é possível colher alguns frutos preciosos e guardá-los no seu campo interior para que algum dia amadureçam e sejam de utilidade para outros. Uma Lama Americana que não me lembro o nome fez um retiro de 3 anos e disse que o que mais aprendeu foi ser humilde perante os grandes praticantes realizados do passado e do presente, depois que constatou o verdadeiro estado aflitivo de sua própria mente durante o longo retiro. Cristine Skarda conclui que durante o retiro “você não esta tentando fugir do mundo, mas se preparando para abraçá-lo completamente”.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Como o Karma funciona


Chandrakirti, que escreveu o suplemento para o Caminho do Meio explica algo muito interessante:

Que não existe uma mente que seja a base-de-tudo.

Os Yogacarins acreditam que esta mente existe e que ela de fato ´guarda` as sementes de todas nossas ações, nossos karmas. Como uma espécie de cofre, fixo e imutável. A lógica dos Yogacarins segue que para uma ação ter um resultado, deve haver uma mente constante que conecte solidamente uma ação a seu resultado. Como um barbante amarrado ao começo de algo e que termina no fim de algo, uma cola, uma ´mente base-de-tudo`. Caso contrário o resultado não aconteceria, especialmente em casos onde o resultado de uma ação ocorre anos ou até vidas depois do karma inicial.

Chandrakirti diz: uma semente karmica se desintegra no momento em que é acumulada e esta desintegração gera outra desintegração e assim por diante até o efeito maduro e final daquela ação (karma) inicial ser produzido. (momento para pensar).
Como é este processo?
1-primeiro, uma ação virtuosa é feita (isto é o karma, positivo no caso)
2-esta ação se desintegra deixando uma semente karmica na mente.
3-a semente em sí se desintegra e abre uma sequência de desintegrações.
4-que são os efeitos da ação virtuosa mas não o efeito primário, principal.
5-esta sequência continua até que o efeito primário é produzido onde então o efeito é exhaurido.

Por exemplo, a ação primária de ajudar a velinha a atravessar a rua gera uma série de causas e efeitos que terminam no resultado final de ser ajudado de alguma maneira tambem.

Ou seja, não é que a ação (karma) principal fica guardado sem nunca se modificar até o momento de gerar um resultado. O karma vai se transformando de acordo com a lei de causa e efeito. Do mesmo jeito que um feto vai se transformando, se desintegrando até a morte desde o momento da concepção. A morte é o resultado do nascer. O efeito é o resultado final da causa.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

a montanha

By sitting very still –
The mountain comes to you.


(Geshe Michael Roach-durante seu retiro de 3 anos terminado em 2005)

quinta-feira, 19 de março de 2009

Karuna

A origem da palavra Compaixão vem do Latim, Compati, que quer dizer mais ou menos "sofrer junto" ou ter pena. No Budismo, compaixão baseada na pena é parecida com compaixão baseada no apego, é algo instável e desequilibrado. A verdadeira compaixão (ou karuna) é baseada em um sentimento de equanimidade por todos os seres e se trata de uma qualidade mental que não gosta e não quer que os outros sofram. A compaixão é a aceitação clara de que todos somos iguais no sentido de estarmos dentro do samsara e por isso todos merecem o nosso amor e cuidados independentemente se nos fizeram mal ou não. A compaixão é abrangente, baseada na razão e livre do apego. A compaixão é gerada através da correta realização da natureza impermanente da realidade, da compreensão do sofrimento e da vacuidade.
A compaixão demarca limites dentro da sociedade, alguém pode se tornar muito rico vendendo armas ou drogas e de um ponto estritamente financeiro estão corretos, mas causam danos enormes a milhares de pessoas e muito mais a si próprios. Com uma apreciação maior do valor humano, todas as atividades se tornam positivas. A compaixão é a base da ética do Budismo Mahayana e o portal de entrada do Bodhisattva. A compaixão é cultivada pouco a pouco junto com a sabedoria, não é fácil, não é óbvia, não nasce de um dia para outro mas pode ser treinada minuto a minuto.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Lam rim

"Uma afliçao mental é definida como um fenomeno que ao surgir nos perturba"
(Asanga)

A experiência de insatisfação da existencia cíclica tem suas causas - as aflições (atitudes perturbadoras e emoções negativas) em nossa mente. Pense no exemplo das seguintes aflições em sua vida:

1.apego: quando exageramos ou projetamos as qualidades boas de um objeto ou pessoa e nos apegamos a ele/ela.
2.raiva: quando exageramos ou projetamos as qualidades ruins de um objeto ou pessoa e desejamos ficar longes ou até mesmo machucar o objeto.
3.orgulho: um senso inflado de nós mesmos que nos faz sentir melhor ou pior que os outros.
4.ignorância: falta de clareza para com a natureza das coisas e sobre a natureza da realidade, sobre o karma e seus efeitos.
5.dúvida errada: duvidas tendendo a conclusões incorretas.
6.pontos de vista distorcidos: concepções erradas, que são:

-Acreditar que o ´eu` e o ´meu` existem por si só, independentes de causa e efeito.
-Acreditar no eternalismo (tudo, inclusive eu vou existir para sempre sem mudar) ou no niilismo (depois da morte não existe nada, eu vim do nada e vou para o nada).
-pontos de vista distorcidos: negar a existência de causa e efeito, renascimentos, da iluminação e das três jóias.
-manter pontos de vista distorcidos como supremos: pensar que as visões acima são as melhores
-manter a má ética e forma de conduta como suprema: pensar que açoes não éticas são éticas e que práticas incorretas o levarão a illuminaçao.

Para cada uma das aflições mentais considere:

-Como ela lhe causa problemas agora através da interpretação não realista de eventos na sua vida?
-Como ela lhe traz futuro sofrimento gerando as causas ou o karma negativo?
-Que antídotos você pode usar quando surgirem em sua mente?
-Qual é a aflição mais forte em você? Tenha então uma aspiração forte de estar alerta para neutraliza-la quando surgir.

Conclusão:
Vendo o estrago que tais aflições mentais causam em sua vida, desenvolva a determinação de estar consciente do surgir delas e aprenda a praticar os antídotos. Se for raiva, pratique a paciência, se for orgulho pratique a humildade, se for ignorância, vá trás de sabedoria e assim por diante. O lado positivo temos que aprender, o lado negativo já vem bem instalado dentro de nosso computador interior, não precisamos nos esforçar para ter raiva afinal...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Lenchak

Lenchak em Tibetano quer dizer débito karmico.
Quando temos relacionamentos difíceis, de muito apego e expectativa, mas ao mesmo tempo amor e carinho pela pessoa, e é tudo muito complexo e nada simples e claro. Isto é Lenchak.
Existe um tranco emocional quando vemos ou pensamos na pessoa, normalmente alguém próximo, filhos, pais, amigos íntimos, chefes - todas as relações onde existe muita expectativa e demandas silenciosas que nos fazem sentir responsáveis pela solidão e dor física e emocional do outro.
Len quer dizer: ocorencia e chak: apego ou atraçao, ou a sensação de que algo nos puxa para alguém, normalmente de uma maneira insalubre. Pode ser entendido como resíduo que nos visita de uma dinâmica antiga, de relacionamentos antigos, de uma vida passada. Uma dinâmica que agora é forte devido a familiarização e ao habito.

Nos infernos Budistas, dizem que o ser ouve a voz de alguém conhecido e imediatamente vai nessa direçao, encontrando criaturas horrendas e muita dor física e mental. Isto é interessante porque com aqueles com quem temos Lenchak, sentimos um dever de ´ir`, como se estivéssemos sendo puxados, algo fora de nosso controle ou senso de resistência. Não queremos ir, mas TEMOS que ir. Nosso nome é chamado e saltamos imediatamente para servir-los. Esta não é uma decisão consciente -nem uma decisão alegre- mas mais como ser arrastado por um vento muito forte. Nossa reação, seja ela de raiva, inveja, apego ou o que for, serve somente para fortalecer a dinâmica. Pessoas tem feito muito ´em nome do amor`. Mas se isto é amor, não é uma forma saudável de amor.

No Tibet dizem que existe um lago, que durante uma lua cheia específica de cada ano, focas oferecem peixes com suas bocas para corujas que ficam nas árvores acima do lago, esperando comer. Não existe razão especial para as focas fazerem isto, somente que as corujas o esperam. A historia diz que as focas não ganham nada com isso e as corujas nunca estão satisfeitas. Como não existe razão óbvia por esta dinâmica, os Tibetanos dizem, "deve ser Lenchak".

A dinâmica Lenchak tem dois lados, o lado da foca e o da coruja. Se somos a foca, sentimos uma responsabilidade silenciosa emocional pela mente e bem-estar de outra pessoa. Somos puxados a ela, como se fosse nosso dono. É uma experiência forte e visceral, e temos uma reação física imediata. O telefone toca, vemos quem é, “é a coruja”. Temos que atender e somos atacados por uma onda de ansiedade e repulsão, como se estivéssemos sendo atacados por nosso sistema nervoso. Nos preparamos para um problema ou um ´download` emocional forte. Por mais que desejamos nos desconectar desta pessoa não conseguimos nos libertar, somos capturados. Checkmate!

Isto não é o caso, na verdade somos presos por nosso próprio apego, culpa e inabilidade de resistir a dor que vem de se sentir indevidamente responsável por ele/ela. Por um lado, não conseguimos ver a coruja se debater, por outro não conseguimos soltar. Esta dinâmica nos puxa para baixo, nos faz perder o brilho.cEnquanto isso a coruja nunca esta satisfeita, não importa quantos peixes a foca tenta alimentar a ela.

Claro que quando estamos presos na síndrome da coruja, não vemos as coisas desta maneira. Nos sentimos negligenciados, isolados e fracos. Isto porque estamos dependendo de alguém para manejar nossos medos. Temos muitas demandas não ditas, e quando a expressamos, é de modo carente e necessitado. A síndrome da coruja nos torna infantil. Perdemos nossa confiança, achamos que não podemos fazer as coisas por nós mesmos, não sabemos lidar com nossa mente e emoções. Embora a coruja pareça fraca e dependente, é ela quem manda. É um pouco manipuladora, não quer limpar a própria sujeira. É uma atitude privilegiada pois ela tem a foca.

A ironia desta dinâmica, é que na maioria dos casos, quanto mais peixes a foca oferece, mais a coruja quer e mais insatisfeita esta. Este tipo de dependência e expectativa leva a cenas muito feias. É verdade que a foca pode temporariamente saciar a coruja, mas um respeito mutuo nunca nasce deste tipo de arranjo.

A diferença entre amor e Lenchak deve ser bem analisada. Amor e carinho pelo outro aquece o coração e nos torna generosos. Sentimentos de amor nascem naturalmente, não são o produto de pressões e demandas. A dinâmica Lenchak causa apego, insegurança e ressentimento.
Grandes praticantes sabem disto muito bem. Conhecem os buracos de Lenchak e protegem ferozmente sua independência. Trabalham de maneira inteligente com outros porque sabem que seja com seus pais, família ou quem seja, se caírem prezas desta dinâmica, perderão seu tempo (literalmente) e sua paz mental. Principalmente porque é uma relação baseada na neurose. Lenchak não lhe permite ajudar os outros e lhe arrasta para uma ´outra` vida.

(Baseado no livro "Light Comes Through:Buddhsit Teachings on Awakening to our Natural Intelligence", Shambhala Publications, 2008, de Dzigar Kongtrul-profesor de filosofia na Universidade de Naropa)